A Jornada Cristã Em 4 Etapas: Acreditar, Ter Fé, Crer e Confiar
- Claudio Roberto Sousa
- 4 de ago. de 2025
- 20 min de leitura
Atualizado: 28 de ago. de 2025
Introdução: A Fé é uma Jornada, Não um Ponto de Chegada

A fé cristã, na prática, não é algo que acontece de uma só vez e permanece igual para sempre. A Bíblia nos mostra que a fé é, na verdade, uma jornada, um caminho de crescimento que dura a vida inteira. Esse caminho não é confuso ou sem direção; ele segue etapas que podemos reconhecer, nos levando de um entendimento inicial com a mente até um lugar de descanso e profunda confiança em Deus.
Este artigo é um convite para explorarmos juntos essa trajetória, dividindo-a em quatro estágios, Vamos ver "A Jornada Cristã Em 4 Etapas: Acreditar, Ter Fé, Crer e Confiar."
Para entender a diferença entre essas palavras, que às vezes parecem significar a mesma coisa, vamos olhar para o que elas querem dizer nas línguas originais da Bíblia, o grego e o hebraico. Faremos isso não para complicar, mas para descobrir a riqueza e as nuances que nos ajudam a ver como a nossa fé pode amadurecer. Veremos que esse modelo de quatro etapas não é apenas uma ideia inspiradora, mas algo que está bem fundamentado na Palavra de Deus.
Vamos caminhar por cada um desses estágios. Começaremos com o "Acreditar", que é o ponto de partida da nossa mente. Depois, vamos explorar a "Fé" como uma certeza que nasce dentro de nós, alimentada pela Palavra. Em seguida, chegaremos ao "Crer", que é o momento em que nos entregamos de verdade e fazemos uma aliança com Cristo. Por fim, vamos entender o que é "Confiar", o ponto mais alto da maturidade espiritual, onde encontramos descanso e segurança em Deus. Também vamos dar uma olhada no oposto de tudo isso: a incredulidade, que não é apenas ter dúvidas, mas uma recusa em seguir adiante na jornada.
Estágio da Jornada | Termo em Português | Palavra Original (Língua) | O que Significa | O que Faz na Vida Espiritual | Versículo-Chave |
1. O Ponto de Partida | Acreditar | pisteuō (Grego) | Aceitar com a mente | Cria a base da verdade | Tiago 2:19 |
2. A Certeza que Cresce | Fé | pistis (Grego) | Convicção, certeza | Nos move em direção a Deus | Romanos 10:17 |
3. A Entrega Pessoal | Crer | pisteuō eis (Grego) | Entregar-se, unir-se | Firma uma aliança pessoal | João 3:16 |
4. O Descanso Maduro | Confiar | batach (Hebraico) | Refúgio, segurança | Consolida o relacionamento em descanso | Provérbios 3:5 |
Seção I: Acreditar — O Ponto de Partida da Mente
No começo de qualquer caminhada com Deus, o primeiro passo é acreditar. Este é o ponto de partida da nossa mente, a base sobre a qual toda a nossa fé será construída. Acreditar, nesse primeiro momento, é aceitar como verdadeiras algumas ideias fundamentais: que Deus existe, que Jesus é real e que a Bíblia é a Sua Palavra. É concordar que um conjunto de fatos é verdadeiro.
O que a Palavra Grega nos Diz
No Novo Testamento, a palavra grega para isso é pisteuō (πιστευˊω). Em seu nível mais básico,
pisteuō significa simplesmente "aceitar como verdade" ou "dar crédito a algo". É um ato da mente que reconhece que uma afirmação é correta. Esse passo é essencial; sem ele, a jornada nem começa. Ninguém pode se comprometer com algo que não considera verdadeiro. No entanto, a própria Bíblia nos avisa que, se pararmos por aqui, esse ponto de partida pode se tornar um lugar perigoso de estagnação.
O Alerta de Tiago 2:19
A passagem que melhor nos alerta sobre o perigo de parar no "acreditar" está em Tiago 2:19: "Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; também os demônios o creem, e estremecem". Para entender o peso dessa frase, precisamos olhar para o contexto.
Tiago está argumentando de forma muito forte contra uma fé que não leva a ações. Ele pergunta qual o valor de uma fé que não ajuda a alimentar quem tem fome ou a vestir quem não tem roupas. A intenção de Tiago é nos chocar, mostrando que uma "fé" que fica só no campo das ideias, sem mudar nosso jeito de viver, é inútil.
A crença dos demônios é teologicamente perfeita. Eles creem que "Deus é um só" , a principal declaração de fé do povo de Israel (encontrada em Deuteronômio 6:4). A doutrina dos demônios não está errada; eles sabem a verdade sobre quem Deus é. Eles não são ateus; são teólogos precisos.
O ponto central, porém, é o resultado dessa crença. O fato de os demônios acreditarem não os leva a adorar, amar ou obedecer a Deus. Pelo contrário, os faz "estremecer" de pavor. Eles conhecem a verdade sobre o poder de Deus, mas essa verdade só serve para confirmar sua própria condenação e enchê-los de medo, porque eles vivem em oposição a esse Deus.
Saber a Coisa Certa com o Coração Errado
A análise de Tiago 2:19 nos mostra uma verdade profunda e um pouco assustadora: o maior perigo espiritual não é necessariamente acreditar na coisa errada (heresia), mas acreditar na coisa certa com um coração que não se entregou. O erro dos demônios não está no que eles sabem, mas na sua atitude e na falta de um relacionamento com Deus.
Isso nos alerta para a possibilidade de alguém afirmar todas as verdades da fé cristã, defender a doutrina correta com inteligência e, mesmo assim, ter uma fé que não se diferencia da fé dos demônios. Se acreditar nas verdades sobre Deus não produz uma mudança de vida, uma entrega da nossa vontade e uma obediência por amor, essa crença continua sendo apenas um exercício intelectual, sem vida.
Isso é um aviso sério contra um "cristianismo de fachada", que se contenta em apenas ter o nome de cristão, ou um "cristianismo acadêmico", que se orgulha de saber muito sobre Deus, mas não tem um relacionamento vivo e obediente com Cristo. A teologia correta é o mapa para a jornada, mas confundir o mapa com o destino é um erro fatal. O primeiro passo, "acreditar", é essencial, mas é apenas o começo. A verdadeira jornada da fé exige que a gente vá além.
Seção II: Fé — A Certeza que Nasce do Espírito
Se "acreditar" é o primeiro passo da mente, a "fé" é o passo seguinte do coração. Esta segunda etapa vai além de apenas concordar com fatos; ela se torna uma certeza profunda, uma convicção que nasce dentro de nós e nos move em direção a Deus. A fé, no sentido da palavra grega pistis (πιˊστις), é a semente da vida espiritual, plantada em nós pelo Espírito Santo, e Deus espera que ela cresça e dê frutos.

O Significado de pistis
A palavra grega pistis é uma das mais ricas do Novo Testamento. Ela carrega a ideia de persuasão, convicção, confiança e firmeza. Sua origem é interessante:
pistis vem do verbo peithō (πειˊθω), que significa "persuadir". Isso nos mostra que a fé bíblica não é um salto cego no escuro, mas uma resposta confiante a algo que nos convenceu. A fé nasce quando somos convencidos da verdade e da confiabilidade de Deus e de Sua Palavra.
Para entender ainda melhor, podemos olhar para sua palavra correspondente no Antigo Testamento, o termo hebraico emunah (אֱמוּנָה). Emunah significa, antes de tudo, fidelidade, firmeza e confiabilidade. E, mais importante, emunah era um atributo de Deus. É porque Deus é fiel (emunah) que nós podemos responder com fé (pistis). A firmeza do caráter de Deus é a base sólida sobre a qual podemos construir nossa confiança. Nossa fé não é algo que inventamos, mas uma resposta à fidelidade que Deus já demonstrou.
O Alimento Essencial da Fé: A Palavra de Deus
De onde vem essa certeza que nos convence? O apóstolo Paulo nos dá a resposta em Romanos 10:17: "De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus". Este versículo nos ensina algo fundamental: a fé verdadeira não nasce de emoções, de tradições familiares ou da cultura. Ela é gerada quando nos expomos de forma contínua e viva à Palavra de Deus, que tem Jesus como centro.
O "ouvir" (akoē - ἀκοή) que Paulo menciona não é apenas escutar de forma passiva, mas se engajar com a mensagem do evangelho. É o jeito que Deus escolheu para despertar a fé em nosso coração. A Palavra de Deus tem um poder criador; assim como Deus disse "haja luz" e o mundo passou a existir, Ele fala através da Bíblia, e a fé passa a existir em nós.
O Perigo da Fé sem Alimento: O Bezerro de Ouro
O que acontece quando essa fé, depois de nascer, não é alimentada pela Palavra? A história do bezerro de ouro em Êxodo 32 é um exemplo trágico. O povo de Israel não tinha deixado de acreditar em Deus. Eles ainda queriam adorá-Lo. Mas, com a demora de Moisés, que trazia a Palavra de Deus, a fé deles ficou fraca e ansiosa.
Essa fé faminta procurou um substituto. Eles pediram a Arão que fizesse um deus que fosse na frente deles. O resultado foi um bezerro de ouro. E o mais chocante é que Arão o apresentou dizendo: "Este é o seu deus, ó Israel, que o tirou do Egito", e marcou uma "festa ao SENHOR (YHWH)". Eles transferiram sua fé da Pessoa invisível de Deus para um objeto visível e que podiam controlar. Eles ainda tinham "fé", mas era uma fé desviada, uma fé em um substituto.
Essa história nos mostra um princípio que vale para sempre: quando a fé não é alimentada e moldada pela Palavra de Deus, ela se torna fraca e pode cair na idolatria. Os ídolos de hoje podem ser diferentes: fórmulas religiosas, rituais vazios, líderes carismáticos, ideologias ou até mesmo a própria "fé" como um poder a ser usado, em vez de ser fé na Pessoa de Deus. A fé que não se alimenta da Palavra vai procurar comida em outros lugares e, com certeza, vai se desviar. A certeza que temos no coração precisa ser sempre ajustada e aprofundada pela voz de Deus na Bíblia para que possa crescer de forma saudável.
A fé vem pelo ouvir, como afirma Romanos 10:17 — mas não é qualquer palavra que gera essa fé viva. É a Palavra que fala de Jesus, ou melhor, que Jesus fala. É o Evangelho que revela a pessoa de Cristo. A fé verdadeira não se constrói apenas sobre doutrinas ou ensinamentos abstratos, mas sobre a revelação de quem Jesus é.
Nesse ponto da jornada, a Palavra de Deus não apenas informa, ela transforma. Ela nos conduz até Jesus. Ao ouvir a mensagem do Evangelho com um coração aberto, acontece algo espiritual: somos atraídos para o Filho, e a fé passa de uma convicção interior para uma entrega pessoal. Isso é o momento em que a fé se torna “crer em” — não mais apenas crer que Jesus existe, mas crer nele como Salvador, Senhor e amigo.
Esse “crer em” é relacional. É confiar, seguir, amar. É a passagem da fé conceitual para a fé encarnada, vivida. E é aí que começa a verdadeira transformação.
Seção III: Crer — Quando a Fé se Torna Pessoal
A terceira etapa da jornada é um amadurecimento fundamental da fé. É o momento em que a certeza que tínhamos dentro de nós se transforma em uma entrega pessoal. O foco muda de "acreditar que" certas coisas são verdadeiras para "crer em" uma Pessoa. A palavra pisteuō, que no primeiro estágio era apenas um concordar com a mente, agora ganha uma profundidade de relacionamento. A concordância vira aliança; a certeza vira compromisso.

O que "Crer em" Jesus Significa
Essa mudança fica clara no Novo Testamento, especialmente no Evangelho de João, que usa muito a expressão pisteuō eis (πιστευˊω εἰς), que significa literalmente "crer para dentro de" ou "crer em". A palavra eis indica movimento e união. Crer "em" Jesus, nesse sentido, é muito mais do que concordar com o que Ele ensinou. Significa mover nossa alma em direção a Ele, nos lançar sobre Ele, buscando Nele salvação e vida.
O exemplo mais famoso é João 3:16: "...para que todo o que nele crê (pisteuō eis auton) não pereça, mas tenha a vida eterna". A salvação não é prometida para quem apenas acredita em fatos sobre Jesus, mas para quem se entrega a Ele em uma união de confiança. É aqui que a fé deixa de ser um conceito e se torna um laço vivo, uma aliança entre nós e Cristo.
O Foco da Fé: Olhando para Jesus
Para que a fé se torne pessoal, ela precisa de um alvo pessoal. O autor de Hebreus nos diz exatamente para onde olhar. Em Hebreus 12:2, ele nos incentiva a correr a corrida da vida "tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé". O que essas palavras significam é incrível.
Jesus é o archēgos (ἀρχηγοˊς) da fé. Essa palavra significa "autor", "pioneiro" ou "aquele que começa". Ele não é apenas um exemplo de fé; Ele é a fonte de onde a nossa fé vem. Ele abriu o caminho até Deus.
Ele também é o teleiōtēs (τελειωτηˊς) da fé, que significa "consumador" ou "aquele que completa". Jesus não só começa a nossa fé, mas também a leva até a perfeição. Nossa jornada de fé começa Nele, é sustentada por Ele e encontra seu objetivo final Nele. Manter nosso olhar firme em Jesus é o que faz a nossa fé amadurecer e se transformar em um relacionamento pessoal e vivo.
Uma Imagem da Criação: A Luz e o Sol
ara entender a passagem da "Fé" para o "Crer", podemos usar uma bela imagem da história da criação em Gênesis.
No primeiro dia, Deus diz: "Haja luz" (Gênesis 1:3). E a luz aparece, separada da escuridão. Essa luz é real e poderosa. No entanto, sua fonte não é visível; o sol, a lua e as estrelas só foram criados no quarto dia. Muitos teólogos entendem que essa primeira luz era a própria glória de Deus brilhando.
Essa luz do primeiro dia é uma imagem perfeita para o segundo estágio da jornada: a Fé. Ao "ouvir a Palavra", nós recebemos uma luz espiritual. A verdade de Deus entra em nosso coração. Há luz, há entendimento. No entanto, nesse estágio, a Pessoa de Cristo ainda pode não ser o foco claro do nosso relacionamento. A fé é real, mas pode ser um pouco geral, focada mais nas verdades do evangelho do que na Pessoa que é o evangelho.
No quarto dia, Deus cria os luminares — o sol para governar o dia e a lua para a noite (Gênesis 1:14-19). Agora, a fonte da luz se torna visível e central no céu. Isso representa o terceiro estágio: o Crer. É o momento em que nossa fé encontra sua fonte pessoal. Jesus Cristo, o "Sol da Justiça" (Malaquias 4:2), é reconhecido não apenas como a origem de doutrinas, mas como a Pessoa que é, em Si mesma, "a luz do mundo".
A fé deixa de ser uma "luz" geral e passa a ser um relacionamento com o "Sol". O caminho do discipulado é, então, mover nosso foco da "luz" para o "Sol". É aprender a conversar, a se relacionar e a se entregar à Pessoa de onde vêm toda a verdade e toda a vida. É aqui que o verdadeiro relacionamento com Deus começa: uma fé que escuta, vê e responde.
A Dependência do Ramo na Videira
Quando cremos em Cristo, descobrimos um novo modo de viver: a dependência total. Não apenas cremos em Cristo, mas aprendemos a deixar que Ele viva em nós. Jesus usou a imagem perfeita para isso em João 15: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim.” "Permanecer" aqui significa mais do que estar perto; é uma conexão contínua e intencional. É escolher, a cada dia, buscar nossa força, sabedoria e alegria Nele. O fruto que produzimos — amor, paciência, bondade — não é resultado do nosso esforço, mas a consequência natural da Sua vida fluindo através de nós.
Jesus foi claro: “sem mim, nada podeis fazer.” Isso não é uma sentença de incapacidade, mas uma libertação da pressão de ter que ser autossuficiente. É um convite para abandonar o esforço exaustivo e abraçar uma vida onde o poder vem dEle. Essa dependência não é fraqueza; é a única fonte de vida verdadeira e abundante. Crer, portanto, é viver como um ramo: conectado à fonte da vida, nutrido pela Sua graça e rendido à Sua vontade, confiando que Ele produzirá os frutos.
A Intimidade da Amizade com Cristo
Depois de compreendermos nossa total dependência dEle, como um ramo ligado à videira, Cristo nos eleva a um patamar ainda mais profundo de relacionamento. Ele não nos deixa na posição de meros dependentes, mas nos chama para algo surpreendente: amizade verdadeira com Ele. Em João 15:15, Ele declara: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos (do grego, philos), porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer.”
A palavra philos vem do verbo phileō, que denota um amor baseado em afeição, afinidade e companheirismo. Diferente de um amor hierárquico, philos implica uma relação recíproca entre iguais, marcada por confiança mútua, entrega, intimidade e abertura total. Cristo, o Senhor do universo, rompe a barreira entre mestre e discípulo e nos chama para uma relação onde não há segredos, distância ou hierarquia rígida — só proximidade. Este é um privilégio extraordinário, ecoando a forma como Deus se relacionou com figuras notáveis nas Escrituras. Abraão, por exemplo, foi chamado “amigo de Deus” (Tiago 2:23) e, por causa dessa intimidade, o próprio Deus passou a revelar-lhe o que iria fazer, como quando disse: “Ocultarei eu a Abraão o que estou para fazer?” (Gênesis 18:17). A Moisés, Deus falava “face a face, como qualquer fala com o seu amigo” (Êxodo 33:11). Agora, em Cristo, esse convite íntimo é estendido a todos nós.
No entanto, este convite à amizade divina vem com uma seriedade profunda. As Escrituras apresentam uma escolha clara e sem meio-termo. Tiago, o mesmo autor que chama Abraão de "amigo de Deus", adverte de forma contundente: "Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tiago 4:4). Ser amigo de Deus exige uma lealdade exclusiva. Não é possível manter uma aliança com Deus e, ao mesmo tempo, ter um caso de amor com os valores e sistemas do mundo que se opõem a Ele. O próprio Jesus define a condição desta amizade: "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando" (João 15:14). A amizade com Cristo, portanto, não é baseada em sentimentalismo, mas é selada na obediência amorosa.
A amizade com Cristo transforma radicalmente nosso modo de viver e traz benefícios incomparáveis. O primeiro é a revelação. Jesus não nos esconde os planos do Pai; Ele nos inclui neles. Deixamos de ser meros executores de tarefas para nos tornarmos confidentes do Reino. O segundo benefício é a parceria. Não seguimos mais um conjunto de regras por medo ou obrigação, mas vivemos e trabalhamos com Ele, cooperando ativamente em Seu plano de redenção para o mundo. Nossas vidas ganham um propósito eterno quando nos alinhamos com a missão do nosso Amigo.
Finalmente, essa amizade nos leva à comunhão e à transformação. A vida cristã deixa de ser um esforço solitário e se torna um diálogo contínuo, uma confiança viva e um relacionamento profundo. Essa proximidade com Jesus nos molda à Sua imagem, não por imposição, mas como resultado natural de passarmos tempo com quem amamos. O medo é substituído pelo amor, e a obediência se torna nossa resposta alegre à Sua graça e amizade.
Se você deseja que sua fé se torne mais do que uma convicção — que ela se transforme em comunhão — então siga comigo nesta jornada. A Linguagem do Coração é mais do que um livro. É um caminho para o coração de Deus.
Seção IV: Confiar — O Ponto Mais Alto do Relacionamento

O quarto e mais maduro estágio da jornada espiritual é a confiança. Se "acreditar" é a fundação, a "fé" é a estrutura e o "crer" é a casa, então "confiar" é descansar tranquilo e seguro dentro dessa casa, não importa a tempestade que esteja lá fora. Confiar não é mais lutar para crer, mas repousar Naquele em quem se crê. É o resultado de uma longa caminhada, onde a fidelidade de Deus foi vista e sentida muitas vezes, nos levando a entregar o controle e a descansar.
O que a Palavra Hebraica nos Diz
No Antigo Testamento, a ideia de confiança madura é muito bem expressa pela palavra hebraica batach (בָּטַח). Batach significa "confiar", "sentir-se seguro", "estar sem preocupação". Descreve a sensação de segurança que vem de se apoiar em alguém totalmente fidedigno. Batach não é apenas acreditar no presente, mas descansar seguro sobre o futuro, com base em quem Deus é.
O Chamado para Confiar
O convite clássico para esse nível de confiança está em Provérbios 3:5-6: "Confia (batach) no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas". Este texto é mais do que um bom conselho; é uma profunda lição sobre a confiança madura.
O texto nos mostra que temos duas opções: ou confiamos em Deus, ou nos apoiamos em nosso próprio entendimento. A confiança madura exige que a gente abra mão da necessidade de controlar tudo, de entender todos os porquês. É uma decisão de depender da sabedoria infinita de Deus em vez da nossa, que é limitada.
Confiar "de todo o teu coração" significa entregar tudo: pensamentos, decisões e emoções. É uma entrega total da nossa vida à direção de Deus.
A promessa que vem com essa entrega é a consequência natural: "e ele endireitará as tuas veredas". Deus assume a responsabilidade de guiar a vida de quem se entrega a Ele. Confiar não é um ato passivo, mas uma entrega ativa que libera o poder e a sabedoria de Deus em nosso favor.
A Riqueza da Confiança: "Eu Serei o Seu Deus"
A confiança madura floresce quando compreendemos a profundidade da promessa de Deus: "[...] e eu serei o seu Deus [...]" (Jeremias 31:33). Nesta promessa está tudo o que podemos desejar. Para sermos felizes, precisamos de algo que nos satisfaça por completo. Quando Deus se torna nosso, não somos possuidores de todas as coisas? O desejo humano é insaciável, mas a riqueza infinita de Deus pode mais do que transbordá-lo.
Confiar é encontrar satisfação e felicidade arrebatadora nesta verdade. É um mar profundo de bem-aventurança, um oceano sem limites de felicidade. Se a promessa "Eu serei o seu Deus" não faz seus olhos brilharem e seu coração bater mais forte, então nossa alma pode não estar em um estado saudável.
Essa confiança não é apenas para o presente; é nela que exercitamos nossa esperança. Esta é a obra-prima de todas as promessas. Viver na luz do Senhor, deixar a alma ser arrebatada por Seu amor e se alimentar da riqueza que essa porção nos oferece — isso é confiar. Aqui, o Salmo 46:10 ganha vida: "Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus." Esse "aquietar-se" tem o mesmo teor da instrução de Provérbios 3:5, que nos pede para não nos estribarmos em nosso próprio entendimento. Ao reconhecermos que, como ramos, "nada podemos fazer" por nós mesmos, paramos de lutar e nos aquietamos. É nesse consciência de nossa Insuficiência que podemos finalmente ver a soberania de Deus agindo e endireitando nossos caminhos.
É aqui que nossa vida encontra sua segurança máxima, como diz Colossenses 3:3: "...vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus." Essa imagem é poderosa. A união que se consolidou na etapa do "Crer", onde nos tornamos um ramo "juntamente" com a Videira, agora é levada a um novo nível de segurança. Nossa vida, inseparavelmente ligada à de Cristo, é colocada no lugar mais seguro do universo: "em Deus". Estar "oculto" significa estar protegido, guardado, fora do alcance de qualquer perigo. É por causa dessa segurança absoluta que podemos abraçar plenamente o chamado de Provérbios 3:5-6 para "confiar no Senhor de todo o coração e não nos estribarmos em nosso próprio entendimento". Porque nossa vida já está segura, podemos nos dar ao luxo de não precisar entender tudo e simplesmente descansar na sabedoria Daquele que nos guarda.
Os Frutos da Confiança
Uma confiança tão profunda gera frutos que podemos ver em nossa vida.
Paz que Não se Abala: Isaías 26:3 diz: "Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti; porque ele confia (batach) em ti". A paz aqui (shalom) não é a ausência de problemas, mas uma tranquilidade interior que continua mesmo no meio das dificuldades.
Liberdade da Ansiedade e da Manipulação: Quem confia de verdade em Deus é libertado da necessidade de controlar os resultados. A ansiedade, a mentira para se proteger, a manipulação das situações — tudo isso se torna desnecessário. Por que manipular, se descansamos em um Deus bom e soberano? A confiança gera um descanso que nos liberta.
Firmeza e Estabilidade: O autor de Hebreus diz que essa esperança, que nasce da confiança, é como uma "âncora da alma, segura e firme" (Hebreus 6:19). Em um mundo de incertezas, a confiança em Deus nos dá um ponto de estabilidade que não pode ser abalado.
Essa confiança não nasce de um dia para o outro. É o resultado de uma longa caminhada, o fruto da fé que passou por provas, que viu a fidelidade de Deus em ação e que, finalmente, aprendeu a descansar Nele com a liberdade e a segurança de um filho nos braços de um Pai perfeito.
Seção V: O Oposto da Jornada — O que é a Incredulidade
Toda jornada tem o risco de um desvio ou da recusa em continuar. O oposto da jornada da fé não é, como muitos pensam, a dúvida. A dúvida sincera pode até nos ajudar a crescer e a entender melhor. O verdadeiro oposto da fé, segundo a Bíblia, é a incredulidade, um estado muito mais sério. A incredulidade, no sentido da palavra grega apistia (ἀπιστιˊα), não é uma falha de entendimento, mas uma atitude de rejeição, desobediência e endurecimento do coração.
O que a Palavra Grega nos Diz
A palavra apistia é o contrário de pistis (fé). O "a" no início nega a palavra, significando "sem fé". Mas, no Novo Testamento, ela vai além de uma simples ausência de fé. Ela carrega a ideia de infidelidade, deslealdade e desobediência. A incredulidade não é um vazio, mas uma força de resistência contra Deus.
Um Estudo de Caso: A Incredulidade em Nazaré
O episódio em que Jesus é rejeitado em sua cidade natal, Nazaré (Mateus 13:53-58), é um exemplo perfeito de como a incredulidade funciona.
Jesus volta para o lugar onde cresceu e ensina na sinagoga. A primeira reação das pessoas é de espanto. Elas reconhecem sua sabedoria e os milagres que Ele faz. A prova de sua autoridade divina estava ali. No entanto, essa prova bate de frente com o fato de que eles O conheciam desde pequeno: "Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos...?".
A incredulidade deles não surgiu por falta de provas, mas por um preconceito que se recusou a aceitar as provas. A familiaridade com Ele os levou ao desprezo. Eles se "escandalizaram" (tropeçaram) por causa dele. A pessoa de Jesus, em vez de ser a rocha da salvação, tornou-se para eles uma pedra de tropeço. Foi uma escolha de rejeitar o que viam porque não se encaixava no que eles esperavam.
O resultado terrível da incredulidade é dito no versículo 58: "E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles". A incredulidade deles criou um ambiente que bloqueou a ação do poder de Deus. Não que o poder de Jesus tenha diminuído, mas a disposição das pessoas para receber esse poder foi anulada pela rejeição delas. A incredulidade fecha a porta que a fé abre.
A Incredulidade é uma Escolha
Esse exemplo nos mostra uma conclusão importante: a incredulidade, na Bíblia, é um ato da vontade, não uma falta de inteligência. O povo de Nazaré tinha os fatos (os ensinos e os milagres), mas escolheu rejeitá-los por causa de preconceito e orgulho. A raiz da incredulidade deles não foi a falta de informação, mas uma escolha de se ofender em vez de se humilhar e crer.
Isso nos mostra o triste destino de uma fé que se recusa a crescer. A incredulidade é o fim de uma jornada espiritual que foi interrompida. Ela acontece quando uma pessoa se contenta em "acreditar" nos fatos sobre Deus, mas se recusa a avançar para o "crer" com entrega e submissão. Essa recusa em se render, especialmente diante da pessoa de Cristo, endurece o coração. Conhecer as coisas de Deus sem se submeter a Deus é um dos caminhos mais curtos para a incredulidade.
Conclusão: A Harmonia da Fé Madura
Ao olharmos para a jornada espiritual, vemos que a fé, longe de ser uma coisa só, é como a construção de uma casa segura, com quatro etapas essenciais que se apoiam umas nas outras. A jornada começa com a fundação do Acreditar, a aceitação com a mente que estabelece a verdade como o alicerce firme sobre o qual tudo será construído. A partir daí, a estrutura da Fé é erguida, uma convicção interior, fortalecida pela Palavra, que dá forma e solidez à nossa caminhada. O ponto alto acontece no Crer, quando essa estrutura se torna uma casa habitável, através de uma aliança pessoal e transformadora com Cristo. E, finalmente, a construção encontra seu propósito no Confiar, que é o ato de descansar tranquilo e seguro dentro dessa casa, protegido na pessoa e no poder de Deus.
É crucial entender que essas não são etapas rígidas que subimos como uma escada e depois deixamos para trás. São, na verdade, como os anéis de uma árvore: cada nova fase de crescimento envolve e fortalece as anteriores. A confiança madura do quarto estágio não elimina a necessidade da base do primeiro; pelo contrário, ela se apoia nela com ainda mais convicção. A fé de um crente maduro continua sendo alimentada pela Palavra por toda a vida, e a entrega a Cristo é uma decisão renovada a cada amanhecer. Cada estágio é abraçado e aprofundado pelo seguinte, criando um relacionamento com Deus que é, ao mesmo tempo, mais rico, mais forte e mais simples.
O objetivo final desta jornada não é apenas acumular conhecimento doutrinário, colecionar experiências emocionantes ou nos tornarmos autossuficientes. O propósito maior é um relacionamento de batach — uma confiança inabalável e descansada — com Deus. É uma vida que, ao confiar, passa de conhecer sobre a fidelidade de Deus para viver a partir dela, começando a refletir a emunah — a fidelidade que nunca muda — do próprio Deus.
Este mapa da fé, portanto, nos convida a uma autoavaliação sincera e gentil: em que ponto da jornada estamos? Onde a música da nossa fé ressoa mais forte hoje? Paramos no porto seguro, mas sem vida, do "acreditar"? Estamos navegando com o vento da "fé", mas com receio de nos comprometer de verdade com o Capitão? Já nos entregamos para "crer" na Pessoa de Cristo, fazendo Dele o centro de tudo? Ou já aprendemos, através das tempestades e da calmaria, a arte de lançar a âncora e simplesmente "confiar" Nele, não importa o que aconteça? A jornada continua, e o convite do Autor e Consumador da nossa fé para avançarmos ressoa eternamente.
"…vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus."
Colossenses 3:3




Muito boa a leitura desse artigo, pois mostra o quanto somos dependentes de Deus e a importância de confiarmos nele, de ter um relacionamento íntimo