A Crucificação do Eu: Aprendendo a Odiar o que Deus Odeia
- Claudio Roberto Sousa
- 31 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de ago. de 2025
Uma jornada teológica sobre a natureza do "velho homem", a expressão máxima do ódio de Deus na cruz e as 10 atitudes que devemos tomar para viver a vida de ressurreição.

A Crucificação do Eu: Aprendendo a Odiar o que Deus Odeia
Na jornada da fé, somos chamados a amar o que Deus ama: a justiça, a misericórdia, a humildade. Mas e se o caminho para a vida verdadeira também envolvesse aprender a odiar o que Deus odeia? Não se trata de odiar pessoas ou o mundo que Ele criou, mas de direcionar um ódio santo e redentor contra um inimigo que vive dentro de nós: o "velho homem".
Esta é uma das verdades mais radicais e libertadoras do cristianismo. É um chamado para participar ativamente na crucificação da nossa natureza caída, para que a vida de ressurreição de Cristo possa finalmente reinar em nós.
A Origem do Inimigo Interno: Quem é o "Velho Homem"?
Para entender o que devemos odiar, precisamos primeiro identificar o inimigo. O "velho homem" não é apenas um conjunto de maus hábitos; é a nossa própria identidade herdada de Adão após a Queda. É o resultado de uma mistura que nunca deveria ter acontecido: a natureza humana, criada pura, contaminada pela natureza de rebelião de Satanás.
Adão e Eva foram as últimas pessoas a andar na terra com uma natureza puramente humana. Após a desobediência, essa pureza foi corrompida. O resultado foi uma nova raça, a "raça adâmica", que já nasce com a semente do pecado.
Este "velho homem" é a fonte de todo o nosso sofrimento autoinfligido. É ele:
Que nos faz passar vergonha e nos enche de culpa.
Que é impaciente, estressado e ansioso.
Que tem pensamentos impuros, sonhos perturbadores e medos paralisantes.
Que, por tomar nosso corpo "emprestado", manifesta suas angústias em doenças físicas e psicológicas.
Que tem depressão, vaidade e um orgulho que sempre precisa ser defendido.
Esse é o "eu" que Deus odeia. E o ato máximo de seu ódio não foi uma punição distante, mas um ato de cirurgia divina realizado na cruz.
A Cruz: O Ato Máximo de Amor e Ódio
A cruz é um paradoxo glorioso. Por um lado, é a maior expressão do amor de Deus, que enviou Jesus como o Cordeiro para morrer em nosso lugar e nos perdoar. Por outro lado, é a maior expressão do ódio de Deus contra o velho homem.
Quando Jesus se tornou um com a humanidade, Ele assumiu essa natureza caída. Ao ser pregado na cruz, Deus não estava apenas punindo o pecado; Ele estava executando, matando e aniquilando a nossa velha identidade. O apóstolo Paulo deixa isso claro:
"Sabendo isto: que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado." (Romanos 6:6)
Deus não reforma o velho Adão; Ele o mata. Se Ele praticou esse ato supremo, nosso papel como discípulos é aplicar as implicações dessa morte em nossa vida diária.
O Caminho da Cruz: 10 Atitudes Práticas Contra o Velho Homem
Se a crucificação é o ato principal, nosso papel é aplicar essa verdade diariamente. Aqui estão 10 atitudes que devemos praticar contra a nossa própria natureza caída:
Desprezar: Não valorize o seu velho eu. Trate suas opiniões, medos e desejos como algo inútil, fútil e sem importância.
"Não há justo, nem um sequer." (Romanos 3:10)
Rejeitar: Afaste-se dele. Não queira contato, não acolha seus pensamentos e fuja de ambientes que fortalecem a velha natureza.
"E não vos associeis às obras infrutíferas das trevas; antes, condenai-as." (Efésios 5:11)
Denunciar (Falar Mal): Não se trata de fofocar, mas de criticar e expor as falhas do seu próprio ego para si mesmo e para Deus, trazendo os pecados à luz.
"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça." (1 João 1:9)
Humilhar: Quando seu orgulho for ferido, não o defenda. Deixe que o velho homem se sinta pequeno e envergonhado, reconhecendo sua total dependência da graça.
"Humilhai-vos debaixo da potente mão de Deus." (1 Pedro 5:6)
Condenar: Julgue seus atos e motivações como errados, indignos e inaceitáveis diante de Deus. Não dê a ele o benefício da dúvida.
"Examinai-vos a vós mesmos." (2 Coríntios 13:5)
Punir (Castigar): Imponha disciplina. Se o velho Adão quer preguiça, escolha o serviço. Esmurre seu corpo e o reduza à servidão.
"Esmurro o meu corpo e o reduzo à servidão." (1 Coríntios 9:27)
Isolar: Corte completamente o relacionamento com ele. Separe-se de suas influências e abandone suas lógicas e nostalgias da velha vida.
"Fazei morrer... a vossa natureza terrena." (Colossenses 3:5)
Desonrar (Destruir a Reputação): Exponha seu velho homem ao ridículo. Não glorifique os pecados do passado, mas fale deles com arrependimento e vergonha.
"Das quais coisas agora vos envergonhais." (Romanos 6:21)
Torturar: Fira-o espiritualmente. Cause sofrimento às suas paixões através do jejum e da oração. Suporte a dor da renúncia como parte da cruz.
"Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o... pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno." (Mateus 5:29-30)
Matar (Executar): Este é o ato contínuo de se considerar morto para o pecado, aplicando a realidade de Romanos 6:6 a cada momento.
A Vida que Emerge da Morte
Por que um caminho tão radical? Porque a vida do novo homem e a vida do velho eu são inversamente proporcionais. Uma só cresce quando a outra diminui. Jesus ensinou essa verdade de forma inequívoca:
"Quem ama a sua vida (psiqué - a vida da alma, do ego), perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna (zoe - a vida divina)." (João 12:25)
O discipulado não é um acréscimo à nossa vida antiga; é uma troca completa. Exige um rompimento radical com o ego, os vícios e as paixões da carne. É por isso que o chamado de Cristo é tão profundo:
"Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo." (Lucas 14:26)
"Aborrecer" aqui significa um amor menor, uma desvalorização em comparação ao amor supremo por Cristo. Se não estamos dispostos a crucificar nossa própria vida, como poderemos segui-Lo?
O caminho é difícil, mas a promessa é gloriosa. Ao odiar o que Deus odeia dentro de nós, abrimos espaço para que a Sua vida — a vida de ressurreição, cheia de paz, alegria e poder — finalmente floresça sem impedimentos.
A Libertação Final: De "Eu" para "Ele em Mim"
No início da jornada, vivemos guiados pelo "velho homem". Com o novo nascimento, recebemos uma nova natureza, mas ainda há uma confusão interna, e os traços do velho eu se manifestam.
Com o tempo, porém, ocorre uma revelação espiritual. Começamos a enxergar o velho Adão não como nosso “eu”, mas como uma outra pessoa — uma presença incômoda que tenta agir por meio de nós. Essa percepção nos leva a um rompimento: o velho homem deixa de ser confundido com nossa identidade real e passa a ser visto como um inimigo a ser vencido.
A partir desse entendimento, o discipulado se torna libertação. A cruz é o lugar onde entregamos o velho eu, e a ressurreição é vivida como a expressão do novo eu.
"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim." (Gálatas 2:20)


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